A representação da Missa dos Quilombos pela companhia brasileira Ensaio Aberto, no Teatro Nacional S. Joâo, constituiu uma dos mais admiráveis manifestações de fé e esperança no carácter «perigosamente» (termo usado, a certa altura, por uma das personagens) subversivo e profético do cristianismo, tantas vezes abafado por uma multiplicidade de interesses.Para mim, nestes tempos em que muitos de nós portugueses se sentem «vindos ‘do fundo da terra’, ‘da carne do açoite’, ‘do exílio da vida’», esta peça recordou-me (trouxe-me de novo ao coração) a utopia (algo que nos faz lutar pela sua possibilidade) de uma Igreja que se faz cúmplice dos «negros de todas as raças» e que celebra a missa «em nome do Deus de todos os nomes que faz toda a carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue».
A fé na Igreja, que também celebramos neste ano, é a esperança naquela possibilidade que é exigida pelos gritos de tantos e tantas do nosso tempo: uma Igreja livre, libertária e comprometida com o homem, no seguimento do «Homem “sem figura humana”, sacrificado pelos poderes do Império e do Templo, mas ressuscitado da Ignomínia e da Morte pelo Espírito de Deus, seu Pai.». Esta peça foi escrita (em conjunto com Pedro Tierra e Milton Nascimento), imagine-se, por um bispo católico (Pedro Casaldáliga) e, muitos dos seus cantos, já foram entoados em missas presididas por ele.
Além daquela alegria que brota da fé e da esperança, não resisti, naquele teatro e à noite ao deitar, em confessar arrependido, diante de Deus e da história, a máxima culpa cristã nos sofrimento e na escravidão de tantos. Hoje, os tempos impõem-nos a denúncia à imagem de Cristo: pela palavra, pelo canto, pela dança, pela festa, pelo grito porque se nos calarmos até as pedras gritarão por justiça.
Fernando Mota

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