1 de fevereiro de 2013

Caminho




      

       A poucos dias de um novo Caminho, lembro aquilo que aprendi com toda a experiência que vivi há cerca de um ano atrás, quando pela primeira vez percorri aqueles trilhos até Santiago. Experiência essa que, poucos dias depois, me serviu como fundamento da minha reflexão acerca do que é uma peregrinação, acerca do que é peregrinar.
     Deste modo, partilho aqui alguns dos ensinamentos que este Caminho me deu, sob o lema «Entra apenas, permanece até ao fim, sai mudado.».

       Se pesquisarmos no Dicionário, ele mesmo nos dirá que uma peregrinação é «uma jornada realizada por um devoto de uma dada religião a um lugar considerado sagrado por essa mesma religião». Pessoalmente, e agora como peregrina que me tornei, tenho a afirmar que uma peregrinação é muito mais do que isso! Porque, para mim, uma peregrinação não é uma mera viagem. E uma vez iniciada, não tem fim. Porque ser peregrino não é algo temporário, e muito menos um título passageiro. Estas últimas semanas mostraram-me e ensinaram-me que ser peregrino é, na verdade, um modo de vida. Por vezes difícil, doloroso até, mas profundamente gratificante. Não só numa perspectiva pessoal, como também para todos aqueles que passam a ter a oportunidade, digo, o privilégio de poder conviver, aprender, crescer e partilhar inúmeros e únicos momentos com aquele que é o verdadeiro peregrino.
         Esta viagem não se trata apenas de uma caminhada até a um destino definido, pois todo o contexto e o ambiente que envolvem o peregrino em toda a sua jornada, e os motivos – da mais diversa natureza – que o movem são fundamentais para que a peregrinação se concretize. Peregrinar carece do encontro com a resposta a questões fundamentais, e de cada peregrino perceber que é motivado “por” ou “para algo”.
        «Por vezes, quando olhamos para dentro de nós e da nossa vida sentimos uma certa frustração por não conseguirmos ser como ansiávamos, por não aproveitarmos o tempo como devíamos, por não atingirmos os resultados que mais desejávamos, por não conseguirmos amar como merecem os que partilham o nosso coração e os nossos dias. Mas não podemos deixar que o desânimo se instale nem que a angústia se transforme em estado de vida. Porquê? Porque todos, todos mesmos, trazemos em nós a Luz. Sim, com letra grande porque centelha do divido. Se, como a Páscoa nos mostra, nem a morte é o fim, então não existem muros inultrapassáveis.» - Fernando Mota
             Logo no primeiro momento de oração me foi proposto reflectir acerca dos pilares matriciais em que me viria a sustentar ao longo daquela semana: foi-me proposto pensar nos motivos pelos quais tinha ido caminhar e qual a meta que desejava alcançar. E foi, e é, este o fio condutor da minha peregrinação. Porque é nela e com ela que eu encontro as respostas às quais, no meu quotidiano, me via incapaz de encontrar. Mas cuja importância é tanta, que não poderia continuar sem as encontrar. Eu precisava de encontrar e perceber qual a minha razão de viver. Por isso, durante aquela semana, parei, quebrei a minha rotina, concentrei-me em mim mesma, e finalmente me comecei a encontrar e voltei a conhecer-me.
« (…) [Peregrinar é ter e viver o] tempo da responsabilidade pessoal, de assumirmos e pararmos de culpar os outros, o Outro… O Caminho continua…» - Fernando Mota
Peregrinar é, portanto, um modo de vida, com uma missão, com um testemunho fiel para cada peregrino e para cada indivíduo que o acompanha. Não é algo fácil. É, na verdade, um desafio. Não é algo rápido. Mas sim assíduo e contínuo.
          E entre os muitos textos, reflexões, orações,…, que me acompanham durante o meu caminho, durante a minha peregrinação, há um que não só me lembra do valor que eu tenho, como daquilo que eu sou capaz e do que preciso para o ser. É um pedido. Um pedido Àquele que, de uma forma que é ainda para mim pouco compreendida, me ajuda, me guia, me ensina. A quem eu tenho muito a agradecer. E que, do mesmo modo impreciso, me faz continuar.
           «O que te peço, Senhor, é a graça de ser. Não te peço sapatos, peço-te caminhos. O gosto dos caminhos recomeçados, com suas surpresas e suas mudanças. Não te peço coisas para segurar, mas que as minhas mãos vazias se entusiasmem na construção da vida. Não te peço que pares o tempo na minha imagem predilecta, mas que ensines meus olhos a encarar cada tempo como uma nova oportunidade. Afasta de mim as palavras que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias. Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros. Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho, sei que posso ser, ser simplesmente. É isso que te peço, Senhor: a graça de ser de novo.»
XXX, Um Deus Que Dança, José Tolentino Mendonça

Daniela Santos

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