Neste último dia do ano, gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão
sobre o tempo.
Os gregos tinham duas formas de falar de tempo: cronos e
kairós. Cronos, na mitologia grega, é o tempo e a divindade que mutila o
pai e devora os filhos, desligando-se do passado e dizendo não ao
futuro, respectivamente. Assim, cronos é o tempo do momento,
fragmentado, sem sentido, sem liberdade, sem história. O cronos é como
esses não-lugares que pululam nas cidades: o átrio da estação por onde
todos passam, mas que nada é como lugar de encontro, de urbanidade, de
relações; as salas de espera de uma qualquer repartição de finanças ou
loja do cidadão; essas praças centrais por onde todos passam mas ninguém
se vê e permanece. Cronos é o tempo da solidão, do vazio, do isolamento
na história e no mundo, onde nada acontece, onde tudo passa
inexoravelmente. O passado não existe nem se lê nem se valoriza e o
futuro é o que for, nada se aforra, nada se prepara, nada se espera. Por
isso, é que o fim-de-ano me incomoda. Primeiro, porque parece que o
Natal já era (e não, amanhã faz oito dias que aconteceu e para os
crentes ainda é dia de Natal) e depois e por isso, há que arranjar
depressa outra festa, outra celebração porque não aguentamos o tédio que
é viver e a percepção de que tudo passa tão depressa. Então lá surge
este dia, como outros ou como o fim-de-semana, em que há que voltar a
subir as sensações, as experiências, os êxtases para que as emoções à
flor da pele nos impeçam de pensar os dias, olhar o tempo e procurar o
sentido de um tempo que nos parece trazer presos na sua voracidade e
circularidade.
O kairós é o tempo como momento oportuno,
oportunidade, o tempo aberto à surpresa e ao mistério do outro em toda a
sua originalidade e dramaticidade. É o tempo de Deus e do Homem, o
tempo do Natal e da Páscoa, o tempo em que se assume o que se foi, se é e
perspectiva-se e constrói-se o que se será. O kairós é o momento de
fazer o amanhã, aprendendo com o ontem. É o tempo como local de
salvação, isto é com sentido e não à deriva. É o tempo não como prisão,
mas como oportunidade a ir mais além. É vencer a circularidade dos dias e dos anos criando e oferecendo vida porque a aventura da vida entregue e oferecida por um filho, por um amigos, pelos pais, por um projecto, por... algo maior é que dá sentido ao mistério do tempo.
Mas o tempo, deixa marcas? Ainda bem, são sinal de que vivi e vivo a vida... e se forem marcas de amor...então tudo valeu a pena, mesmo que o tempo, ao contrário da nossa Esperança, tenha mesmo um fim.
Um bom 2012.
Prof. Fernando MotaP.S. Já agora, um muito obrigado a toda a equipa de evangelização do CLF pelo generoso empenho e convicção.
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